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História da psicometria

É possível descobrir, desde os tempos mais remotos, muitas manifestações da tendência para classificar os indivíduos segundo os seus caracteres particulares, para os comparar entre si, para os seleccionar em função das suas aptidões especiais. Na Grécia antiga organizavam-se numerosas provas atléticas e lúdicas, e tais concursos praticavam-se igualmente em Roma. Sabe-se também que o jovem patrício era considerado apto logo que soubesse ler e compreender as leis romanas gravadas numa pedra do Fórum. As provas sucessivas que os aprendizes das corporações medievais tinham de vencer antes de se tornarem mestres no seu ofício, os exames a que tinham de submeter-se os estudantes da mesma época para conquistar os seus graus universitários (e poderiam citar-se tantos outros exemplos), são outras tantas práticas que podem legitimamente consideradas como os longínquos antecedentes das nossas modernas técnicas de selecção humanas.

Evidentemente não se falava então nem de psicometria, nem de psicotécnica, mas, se não existiam as palavras, lá estava a intenção, embora se utilizassem meios rudimentares para a realizar.

Á medida que as necessidades da sociedade se multiplicam e variam, e a ciência do humano progride, vemos surgir homens que reclamam instrumentos mais precisos e completos de análise pessoal.

Precursores

Os primeiros psicólogos cientistas foram, aliás, tanto ou mais físicos e fisiólogos do que psicólogos. Sabe-se que o primeiro laboratório de psicologia experimental foi criado em 1875 por Wundt, na Lípsia. Foi ali, pode dizer-se, que nasceu ou pelo menos foi concebido o método dos testes.

Os primeiros trabalhos de laboratório limitavam-se no entanto ao estudo dos processos inferiores: domínio sensorial e motor. Só mais tarde se empreendeu o estudo experimental do pensamento e da vontade.

Numerosos discípulos de Wundt levaram para fora do laboratório as concepções e técnicas que ele aí tinha estudado e colocaram-nas ao serviço da vida real. Encontramo-las em todos os países da Europa e da América. A Alemanha foi um viveiro da psicologia aplicada.

A obra de Francis Galton (1822-1911)

Contribuição mais directa que convém pôr em relevo por não ter nascido entre as paredes de um laboratório, mas por partir do interesse que têm em si as diferenças individuais é a obra de Francis Galton, contemporânea da de Wundt e seus alunos. Primo de Darwin e seu discípulo, Galton foi essencialmente um biólogo, mas as suas investigações orientaram-no para a medida de aptidões individuais. Foram as investigações sobre a hereditariedade que o levaram a medir os caracteres que distinguiam mais ou menos os parentes ou não parentes.

Só desta forma é que podia determinar exactamente a influência da hereditariedade sobre os traços físicos e mentais.

Em 1884, o cientista inglês organizou um pequeno laboratório antropométrico em que cada um podia ser submetido a diversas medidas somáticas. Graças às tabelas estatísticas elaboradas por Galton, as pessoas examinadas podiam saber o lugar ocupado, relativamente às características medidas, na população total, ou mais exactamente a percentagem de indivíduos que as ultrapassavam.

“Fui o primeiro, diz Galton, a estudar o problema da hereditariedade por processos estatísticos, a chegar a resultados numéricos, a introduzir nas discussões sobre a matéria a lei da repartição das diferenças em volta de uma média”.

Galton, além de ter utilizado larga e sistematicamente, no decurso das suas investigações, os métodos estatísticos na classificação e interpretação dos dados recolhidos, teve outro mérito: o de ter recolhido em larga escala, para elaboração dos seus trabalhos, aos questionários e escalas de cotação, hoje largamente empregados na apreciação da personalidade.

O método dos testes deve, pois, muito a este sábio inglês. Dele provêm ideias fundamentais, tais como a das escalas graduadas para a avaliação dos traços individuais, a noção de correlação entre as aptidões, e a importância da variabilidade.

Outros precursores

Na mesma época, isto é, nos finais do século XIX, podemos ainda distinguir alguns nomes de psicólogos cujos trabalhos se orientam cada vez mais para a psicologia posta ao serviço da vida: Münsterberg e Sharp que imaginaram e aplicaram na América os primeiros testes profissionais; Jastrow, que apontou a fraqueza das provas usadas por Cattel quanto ao seu valor de prognóstico; Kraepelin, Oerhn, Ebbinghauss, na Alemanha, que se esforçaram por tornar mais objectivas provas respeitantes a funções mais complexas e por utiliza-las no domínio da clínica psiquiátrica e da escola; Taylor, cuja influência havia de ser tão grande, não directamente na técnica dos testes, mas na organização científica do trabalho baseado na análise e na cronometragem dos movimentos profissionais; o italiano Ferrari, autor de testes psiquiátricos; os seus compatriotas Guicciardi e Lombroso que recorrem ao método para o estudo dos criminosos.

O ponto de partida

Em 1896, A. Binet e V. Henri publicaram na Année Psychologique um artigo no qual criticavam a maior parte dos testes existentes, quase exclusivamente destinados, segundo eles, a medir funções simples e inferiores.

Para a avaliação das aptidões propriamente intelectuais, reclamaram eles outros instrumentos, mais próximos do comportamento da vida real e que não têm necessidade de ser tão precisos, visto que aqui as diferenças são muito mais nítidas do que nas funções inferiores.

Medir a inteligência nas suas manifestações concretas e correntes – eis a orientação da famosa Escala métrica de inteligência (1905) que constitui verdadeiramente a primeira série de testes mentais apropriados ao uso que deles queiram fazer: classificar objectivamente as crianças, em graus de inteligência segundo a idade. Esta escala constitui, na história dos testes, o acontecimento capital, embora em França não tenham dado logo conta disso. Ela inspirou maior parte das realizações ulteriores no que respeita à medida do desenvolvimento mental.

Alfred Binet, falecido em 1912, publicou a edição definitiva da sua escala em 1911.

Podemos pois denominar A.Binet como o pai do método dos testes: e isto pela sua concepção inteiramente nova da medida de inteligência e por destinar o seu instrumento a fins verdadeiramente práticos. Sem dúvida, este estava longe de ser perfeito e foi ultrapassado, mas qualquer inventor está sujeito à mesma lei: o seu mérito é conceber qualquer coisa de novo que a lentamente se irá aperfeiçoando.

Continuadores

Até à primeira guerra mundial, o movimento dos testes é particularmente intenso nos Estados Unidos. Alguns dos psicólogos que mais activamente contribuíram para a expansão e o aperfeiçoamento do método foram: E.L. Torndike, L.M. Terman, Whipple, Ch. H. Judd, Freeman, W. Mac Call e Otis. Dois centros particularmente activos foram a Universidade Colúmbia em Nova Iorque e a Universidade de Chicago.

Em 1917, deu-se um novo passo em frente, mas desta vez, no que respeita à técnica de aplicação. Trata-se da aplicação colectiva de testes mentais aos recrutas dos exércitos americanos, enviados à Europa para combater. Foi ainda uma necessidade de ordem prática o que levou a esta inovação: o exame de centenas de indivíduos num tempo reduzido.

Os “Army Tests” que foram revistos e aperfeiçoados quando da última guerra, serviram de ponto de partida a uma quantidade enorme de provas colectivas, principalmente para uso escolar.

In PLANCHARD, E., (1962). Iniciação à técnica dos testes. Coimbra Editora, Limitada.



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